segunda-feira, 9 de março de 2015

Movimentos históricos na Igreja - breve relato




Dias atrás, respondi genericamente a um amigo e amado pastor sobre algumas perguntas históricas acerca dos movimentos cristãos que mudaram durante os séculos anteriores até os nossos dias, a face da igreja de Cristo. Como título de auxílio aos que estão iniciando seus estudos teológicos posto aqui minha carta-resposta. Espero fomentar o começo de uma jornada maravilhosa de estudos da História da Igreja.


Graça e paz te sejam multiplicadas em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo

Amado, embora o assunto pareça um tento complicado, lhe darei uma visão panorâmica dele para que possa, a partir destes pontos, acrescentar sua pesquisa e ir tirando suas próprias conclusões. Minha visão é bem mais histórica em virtude de meus estudos. Vamos por datas e tempos.

Igreja Primitiva – assim chamamos a igreja original dos tempos apostólicos e que vai de Atos, capítulo 2 até meados dos anos 300 depois de Cristo.

Pais da Igreja – são os homens de destaque do período pós-apóstolos (100 d.C.) - Papias, discípulo de João, Irineu, discípulo antigo e Policarpo – até Agostinho que morre em 430 d.C.

A Igreja Romana – ela nasce de forma embrionária com a conversão do Imperador Constantino em 323 e posteriormente ele decretou o cristianismo a fé oficial do Império. Mas dois homens são os fundadores, por assim dizer daquela que conhecemos por Igreja Católica Apostólica Romana: Leão I (440-461 d.C.) e Gregório I (590-604 d.C.). O primeiro lançou as bases do primado de Roma sobre as outras cidades e o início oficial da devoção a Maria e o segundo se autodeclarou Papa e infalível, dando origem a todos os desvios teológicos mais grosseiros da Igreja.

A Igreja Reformada (1546) – essa é a mais conhecida de nós, pois somos – evangélicos, protestantes ou outra coisa – filhos dela. Temos em Lutero e Calvino, os principais nomes, mas existem outras figuras importantíssimas além deles que contribuíram para a libertação dos cristãos do jugo do papado e das correntes do catolicismo.

A Igreja Tradicional – este é o nome que damos a todas as denominações que surgiram após 1800, ou seja, os Batistas, os Presbiterianos, os Congregacionalistas (não confundir com a Congregação Cristã), estes são os principais.

Os Pentecostais – esse grupo de cristãos foi chamado assim por causa do Avivamento da Rua Azuza nos Estados Unidos em 1901 – alguns outros avivamentos já aconteciam esporadicamente em alguns lugares da Europa também, mas este foi o estopim global – sob a liderança do pregador negro Willian Seymour, se espalhou pelo mundo. As Assembléias de Deus, as Igrejas de Deus, a Congregação Cristã no Brasil, são os principais frutos deste movimento, mas se inclui aí a Deus é Amor, o Brasil para Cristo e a Quadrangular, embora mais tardiamente a sua origem.

Os Carismáticos – foi um movimento de renovação espiritual dentro dos grupos tradicionais e protestantes – inclusive na Igreja Católica – que se iniciou nos anos 1960 e 1970, no mundo todo, com a premissa do Batismo com o Espírito Santo e seus dons, sendo uma bênção posterior à salvação e a evidência do falar em línguas como marca registrada desta bênção.

Os Neopentecostais – esse é o grupo mais influente midiaticamente que temos hoje em dia. Iniciou-se no final dos anos 1970 (são chamados de movimento da terceira onda pentecostal) e tem como principais representantes a Igreja Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977), liderada pelo bispo Edir Macedo, e a Igreja Internacional da Graça de Deus (Rio de Janeiro, 1980), liderada e fundada pelo missionário R. R. Soares, ambas presentes na área televisiva, posteriormente, temos o surgimento da Renascer em Cristo (São Paulo, 1986), da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Brasília, 1992), do Ministério Internacional da Restauração (1992), e da Igreja Mundial do Poder de Deus (1998). Todas estas são bem conhecidas de todos, e seu sincretismo religioso são nítidos

Movimentos de Restauração – por toda a história da Igreja de Cristo houveram momentos onde a fé e o retorno à fidelidade foram iniciados. Desde a possibilidade da salvação aos gentios que modificou a forma da igreja de Jerusalém ver as coisas em Atos 15, nos movimentos de santidade dos séculos VII e VIII, do rompimento da Igreja Ortodoxa em 900 d.C., da separação da Igreja Anglicana e o Catolicismo que começou em 1.200 d.C. e se concretizou plenamente em meados de 1500, nos avivamentos históricos, na própria Reforma Protestante. Todos esses movimentos e outros tiveram sua parcela de transformação na maneira que a Igreja em geral via as coisas, a vida, a espiritualidade e as Escrituras e foram pontos de restauração de diversas verdades ofuscadas pelo catolicismo medieval.

Alguns acreditam que essas “reformas” ou “restaurações” são guiadas pelo Espírito Santo para trazer a Igreja de Cristo ao ponto original dos tempos bíblicos de Atos dos Apóstolos. Também consideram que esses movimentos restauram as funções bíblicas que a Igreja esqueceu no tempo, como os Mestres, os Profetas e os Apóstolos. Estamos em nossos dias exatamente no período em que estes acreditam na restauração apostólica, pois já vieram antes a dos Mestres e a dos Profetas, e faltava a dos Apóstolos.

Esta “reforma apostólica” tem sido a que mais recebe crítica por parte dos cristãos que não vêem as coisas desta forma. Muito mais que os ofícios anteriores, os chamados apóstolos modernos têm sido o alvo de ataques ferozes por parte da maioria dos cristãos no mundo todo. Particularmente, creio que há algum tipo de apóstolo em nossos dias, mas não investidos da pretensa autoridade que vejo na maioria. Muitos sequer têm conhecimento histórico, bíblico ou satisfatório do cristianismo e dos escritos dos pais da Igreja. Não acredito em 99% deles em minha visão particular e bíblica da coisa.

Há o que chamo de Movimento Evangélico. Isto começou pequeno nos anos 1990 e se estendeu muito hoje. São as igrejas e a criação dos ministérios que se utilizam do chamado “gospel” – verdadeiro negócio na igreja – e comercializam de tudo para os crentes da atualidade. Bares Gospel, bebidas gospel, shows e baladas gospel – nada de graça, se for, alguém está pagando alto por trás como marketing – todos os produtos são pensados para o público-alvo desses comerciantes da fé. Todos os ritmos de músicas são aceitáveis e vendáveis por esta turma, além das “conversões” super rápidas das celebridades e cantores(as) do mundo que não têm discipulado, vivem sem pastores, sem igrejas, sem conhecimento da Bíblia, sem tempo para amadurecer e rapidamente sobem aos púlpitos para darem seus “testemunhos’, venderem seus CD’s e DVD’s, mas que as igrejas também os usam para seu marketing e crescimento atraindo os crentes, não os não salvos.

Há ainda em nossos dias as chamadas Igrejas Emergentes – elas não usam muito a Bíblia em seus cultos, fazem pouca oração, desejam fazer de tudo para atrair os perdidos, até mesmo se parecer com eles em tudo, inclusive no linguajar (alguns pastores americanos são conhecidos como “pastores que xingam”), tudo para serem mais atraentes aos não cristãos. Usam muita vela, espelhos, artes cênicas – não que isso seja errado, mas usam em excesso – dramatizam as pregações de formas tão variadas que é difícil saber que está em um culto. Os pastores contam piadas, usam exemplos de pessoas não cristãs como referências boas nas pregações. É outro mundo. Neste meio também se encontram as igrejas que são inclusivas, as que fazem casamentos gays e de lésbicas.

Para piorar, apareceu um movimento Ultra Pentecostal. Este surgiu da desintegração da unidade das principais igrejas pentecostais tradicionais, como a Assembléia de Deus. Estas Igrejas Pentecostais com os nomes mais mirabolantes e esquisitos são identificadas com o excesso das profecias não inspiradas, do falar em línguas sem interpretação, de movimentos bruscos com danças e imposições de mãos ou orações para que as pessoas “caiam debaixo do poder”, de giros excessivos com o corpo semelhantes ao Candomblé e Umbanda ao som de músicas rítmicas fortes que induzem ao transe, com roupas estranhas ao uso comum evangélico, com excessivas gritarias e manipulações carnais que imitam uma falsa espiritualidade e coisas afins. Esse número tem crescido nos últimos dias.

Enfim, é isso, meu querido. Espero ter contribuído para o seu crescimento no conhecimento. Todas as fontes podem ser encontradas facilmente na internet para aqueles que não possuam uma biblioteca física como a que eu disponho.

Em Cristo Jesus, de seu conservo.


Carlos Carvalho

terça-feira, 3 de março de 2015

Confusões Cristãs - crentes neófitos ensinando a "igreja"


Confusões Cristãs
Crentes neófitos ensinando a “igreja”

“Não neófito, para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo.” (ACRF)

“Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo.” (NVI)
1 Timóteo 3:6

A expressão “neófito” vem do grego neofuton (neophiton), cujo significado literal pode ser descrito como “planta nova”. Esse é o sentido exato para a correlação que fazemos com a expressão “novo convertido”. Um cristão neófito – Paulo não descreve o tempo exato deste período – é aquele que não amadureceu na vida cristã, no conhecimento do Senhor e das Escrituras, ao mesmo tempo em que pode ser tomado ou inchado por orgulho ou soberba – a palavra grega para isso é tufoqeiV (tiphoteis), que significa “esfumaçado” – que fará com que caia em condenação semelhante a do diabo, ou seja, fique num estado parecido com o dele.

Nestes últimos dias temos visto uma enxurrada de escritos e vídeos que tentam defender a fé evangélica de todas as formas contra heresias introduzidas no meio das igrejas, conceitos errôneos sobre a espiritualidade, contras manifestações espirituais não bíblicas, certamente de fonte de outros espíritos e não do Espírito Santo. Ao mesmo tempo, tentam explicar o Evangelho de maneira que ele seja entendido e vivido como era a intenção dos autores bíblicos do novo Testamento. Tudo isso é extremamente valioso e tem um fundo de boa intenção e zelo pelas verdades das Escrituras.

Só que paralelamente a tudo isso, vemos outro extremo acontecer. Deste lado da trincheira os crentes também torcem as Escrituras para fazê-la dizer o que desejam a partir de sua cosmovisão, criam conceitos a partir do racionalismo e do relativismo secular, fomentam uma diáspora das igrejas instituídas, chamando-as de “denominações”, dizendo-se de si mesmos que são a “igreja”, sem, contudo, levar em consideração que as reuniões da igreja no Novo Testamento eram diárias, semanais e contínuas, e que não há igreja sem a congregação e sem culto a Deus público.

Há uma bateria gigantesca de gente neófita dando ensino bíblico, na tentativa de demonstrar que as “denominações” e “igrejas instituídas” estão erradas em sua forma, em sua administração, na coleta dos dízimos e ofertas, no sustento dos pastores, presbíteros ou bispos e em algumas outras particularidades. Esses(as) neófitos(as) e desigrejados(as), pensando que a salvação nos deixa livres e sem responsabilidades diárias com a fé e a igreja, que Cristo prescinde de seu corpo local, que os pastores e bispos nunca foram sustentados pela igreja e que pensam que as Escrituras inspiradas são apenas as do Novo Testamento – mas desconfio que acreditam somente nas cartas de Paulo – não conhecem profundamente o que ensinam e, tampouco têm condições de ensinar a ninguém.

O modus operandi destes cristãos é semelhante aquele empregado pelos ateus em sua militância contra os cristãos: a rejeição de toda e qualquer autoridade, a agressividade das palavras, o desrespeito com o qual tratam os outros que são o alvo de ataques, a desconfiança geral levantada contra qualquer pessoa em qualquer posição espiritual, desconsideração pela hierarquia eclesiástica descrita no Novo Testamento para o aperfeiçoamento dos santos e coisas semelhantes a essas, tudo isso com a utilização de argumentação com certos textos bíblicos. Qual a diferença entre estes e aqueles? Apenas a crença!

Há ainda algo que estranho profundamente nestes “defensores(as)”: sua quase que total rejeição e ódio contra a parte das Escrituras inspiradas que eles chamam de “lei”, sim, digo isso porque é exatamente assim, há algo no texto que eles pensam que é a lei de Deus. Exercem quase um ódio visceral contra ela, coisa que nenhum reformador fez, nenhum escritor ou pastor sério dos séculos anteriores, nem sequer Paulo, Pedro ou qualquer outro escritor bíblico neotestamentário fez. Agora estes, mergulhados em arrogância e rejeição espiritual à Palavra de Deus, se fazem mestres destas coisas, esquecendo-se da consequência descrita acerca dos que assim procedem (Tiago 3.1).

Parecem fazer confusão entre o que chamam de lei e os textos da lei. Por exemplo, pensam que o Gênesis faz parte da Lei de Deus, apenas por que figura na Torá judaica – não conhecendo a realidade de que a Torá é para os judeus o conjunto de livros escritos por Moisés e não a Lei em sua totalidade – e que não há nada, repito, nada da Lei no livro do Gênesis. Isto é tão claramente verdadeiro que em Cristo somos conectados de volta às origens, ao retorno da posição anterior à queda (com o limitante da morte física ainda); mas sem o poder pecado; Cristo, como o segundo Adão, nos leva de volta ao plano original de Deus, às promessas feitas a Abraão; em Cristo nos tornamos descendentes de Abraão e capazes de desfrutar do que foi a ele prometido e assim por diante. Em Cristo voltamos ao Gênesis, e não à lei civil e cerimonial judaica.

Paulo afirma que a lei é boa, santa e espiritual (Romanos 7.12-14) e que o problema é a minha carne pecaminosa não regenerada que atrapalha o seu cumprimento perfeito em nós, mas em Cristo, por causa do poder do Espírito Santo, agora podemos cumprir exatamente o que a Lei exigia (Romanos 8.2-4). Para estes(as), o que Tiago escreveu sobre a lei não serve (Tiago 2.10-13), porque foi escrita apenas para os cristãos judeus, mas ignoram que ela faz parte da coleção do Novo Testamento e que, se os cristãos judeus para os quais ela foi endereçada só tivessem tido oportunidade de conhecer este Evangelho (a mensagem de Pedro e de Tiago), será que eles não seriam salvos e não seriam parte da igreja de Cristo também?

Num dos casos mais comuns, esses neófitos(as) discorrem largamente sobre os dízimos e ofertas legais e veementemente afirmam que essas práticas não são para os nossos dias porque Cristo as aboliu, dando mais uma vez forte exemplo de sua infantilidade nas Escrituras. Não sabem que, como Abraão não é da Lei, ele deu o dízimo de tudo o que tinha a Melquisedeque que era o mais tremendo símbolo do sacerdócio de Cristo na Antiga Aliança. Ora, se Abraão deu a Melquisedeque, deu a Cristo em figura e símbolo, se Melquisedeque recebe dízimos, Cristo como Sumo Sacerdote (coisa que parecem propositadamente esquecer) também recebe dízimos, mas como o texto se encontra na Torá, erroneamente pensam que é algo da Lei. Como não compreendem os textos da carta aos hebreus acerca disso, a ignorância permanece, e o pior, alguns teólogos de escolas mais livres atestam os seus equívocos.
São tantos os erros e ignorância que é quase impossível fazer uma defesa mais concisa sobre os assuntos que estas pessoas proclamam em nome da defesa do Evangelho. Por isso me atenho somente a estes pontos para principiar um ambiente mais reflexivo e de aprofundamento da compreensão da totalidade das Escrituras em detrimento a uma falaciosa e imaginável restrição dos textos válidos aos cristãos de nossos dias. A moral e a ética de Deus em detalhes só são plenamente conhecidas nos textos do Antigo Testamento e, sem eles, teríamos graves problemas em advertir os pecadores de certos tipos de pecados, como o travestismo, o incesto familiar e o bestialismo, só para início de conversa.

Por fim, acredito piamente na sinceridade de muitos destes neófitos(as), mas como Paulo no início de sua fé foi enviado de volta a Tarsis por causa das confusões que gerou em Jerusalém (Atos 9.20-31) e precisou de um tempo para retornar mais maduro ao ministério, esses irmãos e irmãs também provocam confusões e tumulto dentro e fora da comunidade cristã pela maneira como afoitamente lidam com as coisas. Também se esquecem ou não sabem, que as narrativas do livro de Atos compreendem o período de vida e ministério de Paulo, excetuando-se a carta de 2 Timóteo, isto significa que toda a doutrina de Paulo nas cartas foi desenvolvida no período de Atos, fazendo com que, ao ler as cartas, não podemos deixar de ter as narrativas de Lucas em Atos fora de nossa mente, pois o período histórico é o mesmo do período das cartas paulinas. Isso altera em muito a parcialidade com a qual usam o Novo Testamento, principalmente nas práticas diárias cristãs.

Considero particularmente que a outra parte destes neófitos(as) não são nada do que dizem. Sobre eles os textos de 2 Pedro e Judas têm muito a nos dizer. Não amam a igreja de Cristo, primeiro porque falam dela como se ela fosse a pessoa de cada um deles, sem o conjunto ou a participação comunitária dos grupos locais, e, segundo, não a amam porque não conhecem de fato ao Cristo que dizem servir e não sabem que ele não amou somente o mundo, a alguém pessoalmente ou qualquer outra coisa que digam, mas parecem não conhecer que Cristo amou a igreja e se deu por ela (Efésios 5.25-27 e Atos 20.28).

É muito cansativo falar a neófitos quando estes não ouvem, acham que com pouco tempo de cristãos já sabem tudo o que poderiam saber e possuem todo o discernimento espiritual sobre a igreja, que os reformadores não tiveram, que os antigos pastores não tiveram e nem os apóstolos do Senhor tiveram. Acusando a alguns grupos de manipularem a santa Palavra de Deus, estes incorrem no mesmo erro por sua postura irrefreável e insubmissa. Desconectados da história da igreja, de sua produção de conhecimento por séculos e de sua boa tradição, tornam-se viajantes errantes como Agar, que quis se apartar de Sara antes do tempo determinado por Deus e ouviu do anjo que deveria voltar à submissão de sua senhora, também estes(as) precisam da mesma repreensão.

Há sim, um falso cristianismo exalado por aí que não cheira bem e desvia da fé genuína, de Deus, de Cristo, da cruz e da Palavra os fracos e iludidos espiritualmente. Há sim, um evangelho que é “outro” e não o do Senhor pregado e propagado com pompa, honra e louvor em lugares que mais parecem clubes e salões de festas do que o culto racional prestado a Deus e a seu Cristo. Há sim, um “outro espírito” (ou outros) rondando, girando, rodopiando, caindo, adivinhando, dando consulta, incitando à práticas pagãs e desvirtuando a santidade cristã. Há sim, falsos mestres, falsos pastores, falsos bispos, falsos apóstolos e falsos crentes em nosso meio que infelizmente não serão extirpados até o dia da colheita final. Tudo isso e todos esses precisam ser desmascarados e confrontados, mas não se pode atirar para todos os lados. Por isso o conselho de Jesus quando explicou a parábola do joio (Mateus 13.24-43), no versículo 29, deve ser nosso maior cuidado:

Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis o trigo com ele.

Sinceramente, penso que muitas dessas ações de confronto fazem mais mal do que bem aos novos na fé e aos que as vêm pelas mídias e TV. Minha esposa diz com toda razão que não se vê os mesmos comportamentos combativos e destrutivos da fé em nenhuma outra religião ou seita no mundo, somente no cristianismo, e parte disso é causado pela forma libertina e pós moderna de tratar a Bíblia e a coisas. Ela diz que o único reino dividido é o nosso. Não é que ela tem razão? Apenas dezoito anos de cristã, não cursou teologia, mas é precisa em seu comentário!


Dictum sapienti sat est
(Para o sábio, uma vez dito é suficiente)

Bp. Carlos Carvalho
Teólogo, e Cientista Social
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Tensão Tripla - momentos distintos e simultâneos da fé cristã de nossos dias


TENSÃO TRIPLA

Acredito que vivemos três momentos distintos e simultâneos no que diz respeito à fé cristã de nossos dias:

O primeiro é o aspecto superficial, não bíblico, sem referências escriturísticas fundamentadas que permeiam o universo dos crentes de nosso país e também do Ocidente. Vivemos uma verdadeira falsidade ideológica, no sentido restrito dessa expressão, ou seja, usar uma identidade que não é a sua. O mais importante da falsidade ideológica é, para a considerarmos como tal, que a forma do documento seja verdadeira, ao passo que a fraude esteja inserida no seu conteúdo. Em outras palavras, apresenta-se como sendo a expressão da verdade, mas de fato, esconde a realidade da falsificação.

Falsos obreiros, falsas autoridades, gente não vocacionada ocupando espaços sagrados, dissimuladores e falsificadores da Palavra, falsos adoradores e um número enorme de pessoas não libertas das garras dos demônios assumindo a direção de “cultos” de todos os tipos. Gananciosos, interesseiros, vingativos, libertinos, ociosos, perturbadores da paz cristã, caluniadores, negociadores da fé, manipuladores de textos bíblicos para seu lucro pessoal e pseudodetentores da verdade com a capa de “ungidos” apenas por Deus, ou “mandados” somente pelo Espírito Santo sem o aval da verdadeira igreja de Cristo. Um batalhão de crentes que desejam ser o que não são e tampouco foram chamados para ser!

O segundo é o equívoco da maneira de viver o cristianismo. Isso se inicia na interpretação errônea do texto sagrado, fazendo-o declarar inverdades, e, no “melhor” das hipóteses dar ênfases contraditórias ou meias verdades que não trazem real transformação de vida nem mudança de atitudes dos crentes em relação à moral, à ética e ao comportamento diário. Assim se gera um exército de gente que se tornam verdadeiros poços de iniquidade, de palavras torpes, de falsas verdades, de comportamento dúbio, sem conversão, sem arrependimento e sem Cristo ao final.

A coisa se aprofunda e o campo de Deus se torna um reduto de joios, de virgens não preparadas (segundo a parábola de Jesus), de gente permissiva e sensual, de apóstatas e lobos em pele de cordeiros, gente para quem as cartas de segunda a Pedro e Judas foram escritas e que vivem sorrateiramente em nosso meio como se fossem salvos, mas não há para estes nenhuma esperança de redenção, e como parece que sabem disso, desejam contaminar o máximo possível de cristãos neófitos e confusos e levá-los consigo para a sua perdição.

O terceiro momento simultâneo é a da completa falta de compreensão da vocação e eleição cristã que pode nos fazer ir ao extremo de perder a própria vida por amor a Cristo. No Ocidente não vivemos uma perseguição declarada aos cristãos, ao menos ainda. Há uma intolerância velada contra nós na mídia, nas lutas de minorias que desejam seus “direitos” em detrimento à revelação bíblica e no ambiente da educação onde não se permite de maneira pontual uma defesa da fé cristã e do criacionismo, mas em linhas gerais, uma perseguição geral e feroz ainda não é uma possibilidade em curto prazo. Isso torna os cristãos ocidentais uma espécie de anestesiados em relação ao que acontece no mundo oriental e em lugares de regimes absolutistas.

A exemplo disso, a morte de cristãos no mundo chega à casa dos 10.000 por ano, somente nos casos documentados e isso é uma pequena parcela da realidade global. Parece que isso só nos choca por um momento e depois seguimos com a vida repleta de facilidades e prazer, e apenas algumas ações pontuais são realizadas por certos grupos de cristãos atuantes em direção a esses graves problemas com alguns clamores de oração por eles. Não participamos das dores de nossos irmãos e irmãs mais efetivamente. Isto não é um chamado a uma cruzada armada em defesa deles, mas um clamor por uma ação fortemente mais concreta até mesmo na construção e manutenção de “cidades de refúgio” por parte da igreja mundial em países tolerantes à nossa fé. Precisa ser uma ação global, incisiva e não armada.

Tudo isso sem mencionar nossa apatia às demandas de justiça social e carências profundas nas quais vivem o próprio povo das nações onde os cristãos habitam. Um Evangelho total para o ser humano passa necessariamente por esforçadas ações humanitárias e solidárias que já há muito nos foram ensinadas pelo Senhor Jesus na parábola do samaritano. Sabemos que o mundo (as pessoas que nele habitam) não se torna melhor com o passar do tempo, mas a igreja de Cristo não pode deixar de comunicar a mensagem do Senhor e tampouco não agir como Ele agiria se estivesse pessoalmente aqui.

Jesus sabia que o mundo inteiro não seria transformado por sua mensagem, mas também sabia que bilhões seguiriam sua vida e ensinos. Talvez não consigamos mudar de fato o mundo, mas não devemos deixar de acreditar que sua mensagem é a resposta para a raça humana caída e sujeita ao pecado que a destrói continuamente. Agir como Jesus é amar o mundo como Ele amou e morreu por isso, é ser agente de transformação e reconciliação como Ele foi e foi rejeitado por muitos, é ser pacífico e pacificador como Ele foi, mesmo quando desejam tirar a nossa vida como estão fazendo em alguns países.

Vivemos a tensão tripla entre a falsidade ideológica cristã, a práxis da vida cristã e a compreensão da vocação cristã, e isto em um ambiente nacional e global de tremendas demandas e necessidades sociais. Tenho dito que não é preciso apenas um retorno à fé reformada, mas um retorno à fé de Cristo, dos apóstolos do Cordeiro e dos primeiros discípulos para se criar um novo momento de transformação que o mundo precisa. Ou isso, ou o retorno de Cristo ao mundo!



© Carlos Carvalho
Teólogo e Cientista Social
Comunidade Batista Bíblica
Seminário Teológico Batista Independente de São Paulo

Universidade Metodista de São Paulo

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Falsas Autoridades - Uma perspectiva bíblica da coisa de nossos dias


FALSAS AUTORIDADES

As Escrituras descrevem vividamente uma série de indivíduos que se fazem passar por autoridades constituídas por Deus, mas não são, porém estão vivendo e agindo no meio da Igreja do Senhor em nossos dias. Tal como o joio semeado pelo inimigo durante a noite na parábola ensinada por Jesus (Mateus 13.24-30 e 36-43), estes e estas falsas “autoridades”, não sendo cristãos(ãs) genuínos(as), não convertidos(as), e tampouco levantados(as) ou ungidos(as) por Deus, seguem seu caminho de destruição, desvirtuando a Palavra, desencaminhando os crentes fracos e separando as ovelhas de seu verdadeiro Pastor.
Para início de conversa, quero conceituar a palavra “falso”.
No uso do Novo Testamento, encontramos a palavra “pseudo” como raiz em quase todos os escritos, para denotar a falsidade ou a mentira. Há numerosas palavras compostas que associam “pseudo”, como pseudomai (mentir), pseudos (mentira), pseustes (mentiroso) e pseudes (enganoso). Ela se refere aos fatores que distinguem os verdadeiros discípulos de Jesus e os que não o são, é a luta entre a verdade e a mentira, a obediência e desobediência. Neste caso, essa mentira ou falsidade é traiçoeira e cúmplice da morte.
Quem são esses “falsos” descritos no Novo Testamento? Vejamos a pequena lista composta pela palavra pseudo:

Pseudochristos (falsos cristos) – Mateus 24.24; Marcos 13.24 – Os indivíduos que se apresentam como sendo o próprio Cristo ou uma manifestação dele.

Pseudoprophetes (falso profeta) – Mateus 7.15; 24.11, 24; Marcos 13.22; Lucas 6.26; Atos 13.6; 2 Pedro 2.1; 1 João 4.1; Apocalipse 16.13; 19.20; 20.20 – Os que pensam que receberam mensagens divinas para transmitir a outros ou os que conscientemente enganam os outros se dizendo profetas.

Pseudomartys (falsa testemunha) – Mateus 26.60; 1 Coríntios 15.15 – Todos os que se dizem servos e crentes, mas suas vidas estão em desarmonia com a revelação bíblica. Neste grupo se inclui todos os que professam serem cristãos, mas praticam uma religião ou seita incoerente com a vida de Jesus e dos discípulos.

Pseudadelphos (falso irmão) – 2 Coríntios 11.26; Gálatas 2.4 – São os que estão na igreja com a clara intenção de perverter a fé dos demais trazendo confusão doutrinária e falta de unidade no corpo local.

Pseudapostolos (falso apóstolo) – 2 Coríntios 11.13 – São todos os que se intitulam, se apresentam como apóstolos de Deus, mas não demonstram as credenciais bíblicas que os autorizariam a seguir neste ofício (1 Coríntios 9.1-3).

Pseudodidaskalos (falso mestre) – 2 Pedro 2.1 – São os que ensinam doutrinas estranhas à fé do Evangelho, negam a Cristo, manipulam a Palavra visando o seu próprio lucro, enganam as almas inconstantes pelo seu ensino e abrem o caminho da perdição com suas palavras (1 Timóteo 4.16).

Estas são as palavras base para toda a forma de falsidade de autoridade no Novo Testamento. Não podemos deixar de mencionar que o Antigo Testamento ainda traz a expressão “pastores que apascentam a si mesmos” que reflete a ideia de falsos pastores do rebanho de Deus (Ezequiel 34). Portanto, podemos inferir, e, sem receio algum, dizer que existem outros falsos ministros (2 Coríntios 11.15) que assolam as igrejas e o corpo de Cristo com sua falsa autoridade. São falsos pastores, falsos evangelistas, falsos bispos, falsos cantores(as), falsos músicos(as) e falsos líderes de todos os tipos e qualidade.
Convém seriamente nestes dias tomarmos os exemplos das repreensões do Senhor às igrejas do Apocalipse e observarmos quais foram os seus graves erros a fim de não repeti-los em nossa história, o que sabemos que já está acontecendo. Vejamos alguns:

Igreja de Éfeso (Apocalipse 2.1-7) – embora esta igreja tenha posto à prova os falsos apóstolos e rejeitado a doutrina dos nicolaítas, ela perdeu sua essência: DEIXOU O PRIMEIRO AMOR.

Igreja de Pérgamo (Apoc.2.12-17) – esta igreja foi gerada no centro da adoração mais profunda do Império Romano, sofreu muito por isso, mas permitia em seu seio os que SEGUIAM A DOUTRINA DO FALSO PROFETA BALAÃO.

Igreja de Tiatira (Apoc. 2.18-29) – era uma igreja com muitas virtudes, mas era tolerante COM A FALSA PROFETISA JEZABEL, mulher sem libertação, usada na igreja pelo espírito imundo que operou na maligna rainha Jezabel do AT, e que seu papel é o de fingir estar agindo debaixo do Espírito Santo, todavia, ministra influência de demônios nos que nela acreditam.

Igreja de Sardes (Apoc. 3.1-6) – igreja com um número muito baixo de crentes salvos e convertidos, mas repleta de “irmãos” MORTOS, SEM VIDA CRISTÃ E REPROVADOS pelo Senhor da Igreja.

Igreja de Laodicéia (Apoc.3.14-22) – igreja rica e próspera, mas que NÃO CONHECIA SUA SITUAÇÃO ESPIRITUAL, NEM QUE O SENHOR NÃO ESTAVA NELA.


“...Acautelai-vos, que ninguém vos engane.”
Mateus 24.4


Referências:
Dicionário Vine. W. E. Vine, Merril F. Unger, Willian White Jr. [trad. Luís Aton de Macedo]. Rio de Janeiro, RJ: CPAD, 2002.

Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução: Gordon Chown], -- 2. ed. – São Paulo: Vida Nova, 2000.


Bp. Carlos Kleber Carvalho
Teólogo, Cientista Social, Pr. Sênior da Comunidade Batista Bíblica

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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Pena de morte e os Fundamentos Bíblicos


Pena de Morte e os Fundamentos Bíblicos

3 Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela,
4 visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal.
5 É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência.
Aos romanos, capítulo 13.

Fomos surpreendidos neste último fim de semana (18/01/2014) com um fato histórico negativo para nossa nação: O primeiro brasileiro que foi executado em outra nação por pena capital[1]. Ele foi fuzilado pelo crime de tráfico de drogas, pois tentou entrar na Indonésia com mais de 13 kg de cocaína em 2011. Todas as tentativas de se impedir sua execução por parte de nosso governo aparentemente foram esgotadas e o brasileiro foi morto na tarde do sábado em nosso fuso horário. Há mais um brasileiro no corredor da morte daquele país condenado pelo mesmo crime.

Como pensar biblicamente sobre esse assunto? É possível encontrar algum fundamento ou entendimento nas Escrituras a respeito deste tema tão assustador para o mundo ocidental? Como responder adequadamente às questões levantadas pelos Direitos Humanos e pela soberania das Nações-Estados? Até onde é o limite que determina que uma vida possa ser punida com a morte por parte de um governo legítimo sobre um povo? As respostas não podem ser simplistas!

A Antiguidade

É ponto sem discussão que por toda a Antiguidade a pena de morte era imposta aos transgressores da ordem social de cada povo. O Código de Hamurabi (século 18 a.C.), o mais antigo documento de leis e direitos conhecido da história humana, menciona a pena capital para diversos crimes, como por exemplo, para a difamação por engano, por arrombamento de uma casa, por incesto, por roubo e a famosa Lei Talião em alguns aspectos dela.[2]

    A Torà – o conjunto dos primeiros cinco livros da Bíblia – também descrevia a pena capital para os diversos crimes de sua época. A Torá, embora compilada aparentemente em dois períodos diferentes – os primeiros quatro livros são de cerca de 1400 a 1200 a.C. e o Deuteronômio parece ser de data posterior[3] – prescreve aspectos da Lei de Talião punidos com a morte e diversos outros crimes com a mesma punição. Só pra citar uma das listas, podemos verificar que no Levítico, capítulo 20, há a pena capital para crimes como:

·         Consagrar ou oferecer filhos a outro deus.
·         Amaldiçoar o pai ou a mãe.
·         Adultério.
·         Incesto.
·         Homossexualismo.
·         Sexo com animais.
·         Consultar os mortos e adivinhação.

Portanto, a pena de morte era instituída na Antiguidade e aceita com certa normalidade por parte das pessoas da época. Isso nunca foi problema para os povos antigos. Os únicos que certamente se oporiam a essa sentença eram os condenados. Não é difícil perceber que qualquer pessoa condenada por qualquer crime que seja, até os nossos dias, considerará que sua punição foi maior do que ele ou ela merecia.

Mesmo que na lista dos Dez Mandamentos encontremos a expressão “Não matarás”, em outros textos, como o mencionado acima, prescrevem a pena capital. Isso se dá por simples motivo: não era aceitável que uma pessoa matasse alguém ou fizesse justiça com as próprias mãos – desde a antiguidade – isso era papel do Estado ou dos governos locais. A única exceção à regra era o estado de guerra[4], onde o indivíduo pode matar a outrem sem qualquer punição sobre ele, e isso vigora até os nossos dias.

     Qual era ou ainda é o objetivo da pena de morte? 1) O de estabelecer ordem e controle social evitando que crimes aconteçam, tentando impor medo aos infratores, 2) impor o medo nos concidadãos no caso de ditaduras ou governos autocráticos e 3) combater duramente os crimes considerados gravíssimos por parte das leis civis ou das regras sociais pelas quais vivem um grupo de pessoas. Em todos os casos, a ideia de coibir severamente os que atentam para a ordem social de um povo está implícita, mesmo que em certas circunstâncias, na prática, isso não seja verdadeiro[5].

De Cristo aos nossos dias

É uma missão impossível encontrar nos textos do Novo Testamento uma menção específica e clara que argumente contra a pena de morte impetrada pelo Estado, Império ou Monarquia qualquer. Isso se dá porque os cristãos, até o advento da era moderna[6], sempre viveram sob a égide de monarquias ou impérios. Embora a semente da “libertação” ou da mudança de regimes tivesse sido plantada bem antes do Iluminismo[7], lá pelo tempo da Reforma Protestante no século XVI, ainda assim, a transformação do Ocidente foi lenta.

O cristianismo nasceu dentro do Império Romano no primeiro século de nossa era e nele encontrou terreno fértil para a sua expansão. Quando Jesus nasceu e posteriormente pregou sua mensagem evangélica, Roma dominava sobre todo o mundo civilizado, exceto o quase desconhecido reino remoto do Oriente[8]. Portanto, deste ponto e por toda a chamada Idade Média, os cristãos estiveram sob governos que possuíam a pena de morte.

O que encontramos das narrativas dos Evangelhos? João, o Batista foi decapitado por ordem de um governador local (Mat. 14.1-12), Jesus foi morto por pena capital declarada por um governador romano (Mar. 15.1-15), Pedro e Paulo foram mortos por execuções sumárias por ordem de Nero, segundo Eusébio de Cesaréia[9] (270 – 339 d.C.), historiador cristão. Todos os apóstolos, exceto João, foram vitimados por pena capital, além de todos os cristãos perseguidos no Império Romanos até 303 d. C., também vítimas de pena de morte das mais variadas.

John Fox escreveu um compêndio sobre as perseguições sofridas pelos cristãos no mundo desde a primeira iniciada por Nero em 67 d.C. até os seus dias finais em 1587. Em seu livro[10], ele descreveu minuciosamente, tanto quanto possível, os requintes de crueldade utilizados pelos detentores do poder no mundo, contra os cristãos, ao serem vítimas da pena de morte. Ele também descreveu o poder da Inquisição católica como parte deste modo de punição estatal.

Se superficialmente analisarmos o caso do Brasil, veremos que a pena de morte vigorou no Brasil no período colonial e no império, e foi abolida com a Proclamação da República, em 1889. Até então, as penas eram executadas principalmente por fogueira, esmagamento, decapitação, fuzilamento, eletrocução, garrote vil, apedrejamento e enforcamento[11]. Tiradentes foi um dos mais famosos executados por pena capital – enforcamento - no Brasil[12]. Mas não se deve esquecer que em outros períodos posteriores a pena capital retornou por conta da ditadura do governo militar de 1969 até ser abolida em definitivo pela constituição de 1988[13].

Concluindo

Aqui temos a parte mais difícil e certamente a mais polêmica e complicada de todas. Tratamos apenas de forma descritiva os fatos históricos, mas, a partir daqui, entramos em ambiente mais sério, por se tratar de assunto que não pode ser trabalhado levianamente nem por comoção pessoal ou popular. Assevero, para que os leitores sejam tranqüilizados, que as próximas linhas são fundamentalmente meu pensamento após a análise do pesquisado até este ponto.

Em nenhum lugar do Novo Testamento há a indicação específica de que o Estado não tenha o direito ou não possa executar a pena de morte. Ao contrário disso, o texto base do artigo, a carta de Paulo aos romanos, descreve exatamente que o Estado detém o poder “da espada”, ou seja, de executar a punição que lhe convier pelos crimes cometidos por seus cidadãos. Por isso nem Jesus, nem os discípulos tiveram qualquer problema em considerar certo ou errado a punição por pena capital. Haja vista que os cristãos dos primeiros séculos tinham como honra o morrer por amor a Cristo, mesmo que por sentença de morte (João 21.19).

No sentido inverso, não há igualmente, nenhuma ordem escrita ou indicação que um cristão, e, por conseguinte, um Estado cristão, deva executar a pena de morte em um criminoso. Ao contrário, o centro nevrálgico do cristianismo é o amor ao próximo ordenado por Jesus (João 13.34), e, por isso, a vida se constitui no bem mais precioso do indivíduo (Mat.6.25), portanto, ela é sagrada. Em última instância, Deus é o único juiz sobre a vida e a morte para o cristianismo (Heb. 12.23 / Atos 10.42).

A Constituição brasileira veta terminantemente a possibilidade de pena de morte nos nossos dias. No artigo 5º, inciso XLVII, declara literalmente que não haverá pena de morte, salvo em caso de guerra declarada, e tampouco haverá penas perpétuas[14]. Para todos os efeitos, nosso país é contrário à pena de morte por Lei Pétrea ou Lei Maior, a sua Constituição. Isso nos deixa apenas com o desejo popular ou com a opinião particular, mas nos impossibilita de estabelecer penas capitais, a não ser por um golpe de Estado.

Finalmente, observo que, como cristãos, levando em consideração todas as informações anteriores, de forma peremptória, é possível asseverar ao menos duas coisas:

1)      Para cristãos que vivem em países ou regiões onde a pena de morte é ordenada pelo Estado ou governo local, não se exige dele (deste cristão) que negue a validade soberana do poder constituído, sob quaisquer pretextos, mesmo que seja defensor consciente dos direitos humanos. Isso significa que o fato do cristão ser absolutamente contrário à pena de morte, não o autoriza a se insurgir contra o Estado que a mantém, a não ser pelas vias legais.

2)      Para os que vivem em países como o nosso, onde a pena de morte é vedada o seu estabelecimento por Carta Magna, este discurso se alinha com os princípios fundamentais do cristianismo, da valorização da vida acima de tudo, e não somos autorizados pelas Escrituras neotestamentárias a sequer mencionar a possibilidade de fomentar a pena capital na nação.

Por isso, sou a favor da prisão perpétua para crimes hediondos e homicídios dolosos e do cumprimento total das penas por parte dos condenados, sem comutação ou redução de um dia sequer do tempo determinado em lei para a punição dos crimes. Sou a favor da dignidade moral e física dos detentos, mas não de transformar as cadeias e presídios em centros de convivência para ninguém, pois o criminoso precisa saber de todas as maneiras que o crime não compensa. Sou favorável aos Direitos Humanos como descritos pela ONU[15], mas que eles se apliquem em primeiro lugar às famílias vitimadas pelos criminosos antes mesmo que aos próprios infratores.


Carlos Kleber Carvalho
Teólogo, Cientista Social, Fundador da ONG ABAN Brasil e Pr. Sênior da Comunidade Batista Bíblica










[1] Brasileiro é executado por fuzilamento na Indonésia. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/204483-brasileiro-e-executado-por-fuzilamento-na-indonesia.shtml

[2] Código de Hamurabi. Fonte: The Eleventh Edition of the Encyclopaedia Britannica, 1910
pelo Rev. Claude Hermann Walter Johns, M.A. Litt.D.
Texto em Word.

[3] MERRIL, Eugene H. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Sheed Publicações, 2009, p.321.

[4] A atuação do Poder Judiciário na vigência do Estado de Sítio. http://www.direitonet.com.br/artigos/exibir/3714/A-atuacao-do-Poder-Judiciario-na-vigencia-do-Estado-de-Sitio

[5] Em ditaduras e governos autocráticos ou teocráticos, os casos de pena capital não servem às propostas de trazer ordem social ou coibir severamente crimes graves, mas sim, eliminar os insurgentes ou contrários, criando um ambiente de medo e terror na população.

[6] Muitos historiadores fixam a data do nascimento da era moderna com o advento do Iluminismo, logo após a Guerra dos Trinta Anos na Europa (1618-1648).

[7]GRENZ, Stanley J. Pós-modernismo: um guia para entender a filosofia do nosso tempo. São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 17.

[8]TENNEY, Merrill C. O Novo Testamento: sua origem e análise. São Paulo: Vida Nova, 1995. p. 31.

[9]História Eclesiástica. Eusébio de Cesaréia. São Paulo: Novo Século, 1999. p. 73.
[10] FOX, John. O Livro dos Mártires. Publicado em português pela CPAD. Rio de Janeiro, RJ, 2002.

[11]Pena de morte: O último enforcamento no Brasil. Disponível em: http://leiturasdahistoria.uol.com.br/ESLH/Edicoes/21/artigo143996-1.asp.

[12] Tiradentes. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tiradentes.

[13] Quem foi o último condenado à morte no Brasil? Super Interessante, abril/2004. Disponível em: http://super.abril.com.br/cotidiano/quem-foi-ultimo-condenado-morte-brasil-444449.shtml.

[14] Constituição da República Federativa do Brasil. Imprensa Oficial. São Paulo, 2013.

[15] Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: http://www.dudh.org.br/definicao/documentos/

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Comunidade Batista Bíblica

2015 – Ano I do Tempo de Colheita


Chegou 2015!

Enfim entramos no tempo profético que denominamos Tempo de Colheita. Uma espera de mais de 14 anos a partir das revelações que o Senhor pelo Espírito Santo nos mostrou por meio de seus profetas e intercessores à nossa Comunidade.

Enfim chegamos ao limiar da profecia de Sofonias 3.17-20 – profecia que fundamentou a origem de nossa comunidade de fé – e poderemos ver diante de nossos olhos Yahweh realizar seus movimentos de resgate, de cura e de libertação em amor por meio de cada um que faz parte desta igreja local.

Enfim poderemos andar mais “para dentro” deste período e palavras de profecia legítimas do Senhor e testemunhar o porquê Deus nos gerou com uma palavra da Antiga Aliança, sendo nós uma Comunidade do Novo Testamento. Teremos a partir deste ponto o discernimento necessário para cumprirmos o nosso propósito.

Este é um tempo longo, um período aberto por Deus em sua soberania e vontade reveladas de 21 anos – creio plenamente nisso! – para que unidos e diligentemente alcancemos o fruto mais importante e excelente desta colheita: vidas resgatadas e apresentadas ao altar de Deus. Este é o verdadeiro motivo de nosso trabalho espiritual.

É neste tempo que precisamos fortalecer áreas importantes da vida de nossa Comunidade. A unidade, a Adoração individual e coletiva, o Discipulado de cada membro da igreja, a Libertação como prática e seminário contínuos, os Ministérios com treinamento ininterrupto da liderança formada da Comunidade e a Missão de implantar novas comunidades na visão da Grande Comissão e Evangelização ordenadas por Cristo.

Este é o tempo de alcançar a multidão prometida desde nosso nascimento e cuidar das vidas através do Discipulado Celular, dos Cultos nos Lares, nas Congregações, nos cultos específicos, nas orações, pelas mídias sociais e de todas as formas possíveis, para ministrar a elas a Palavra, o poder e o consolo de Deus para suas necessidades.

É tempo de crescer espiritual e numericamente, é tempo de ter uma organização e estrutura internas de excelência para Deus, é tempo de viver o melhor de Deus mesmo em meio às dificuldades e perseguições, é tempo de crescer mais na graça e no conhecimento do Senhor, é tempo de ter mais experiências com Deus, é tempo de andar no Espírito, manifestar mais seus dons e talentos para a glória dEle. E há muito mais...

Este é nosso tempo!


Carlos & Cristina Carvalho

Bispos

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A Dádiva da Vida Eterna


A DÁDIVA DA VIDA ETERNA
Lucas 18.18-30

Este é aquele famoso texto onde Jesus conversa com o moço rico que queria saber o que deveria fazer para herdar a vida eterna. O que está em evidência é a vida eterna, ou seja, a garantia da vida após a morte e a certeza que esta se dará ao lado de Deus e não no inferno ou na condenação eterna. as palavras originais que são traduzidas como vida eterna por si só já demonstram que é a vida vindoura e não a vida vivida aqui.[1]

Se tomarmos um quadro geral como expressão dessa perícope selecionada do capítulo dezoito, veremos que toda a conversa e as nuances que se desenvolvem a partir dela se concentram na questão da vida porvir. O versículo 18 e o versículo 30 iniciam e terminam o texto com a vida eterna como tema central. O moço faz uma pergunta sobre ela e Jesus finaliza a conversa dando a perspectiva correta sobre a mesma.

O jovem vê a vida eterna na perspectiva da legalidade e de sua relação com a Lei de Deus. Ele está acostumado com essa visão legalista e da justiça que os homens de Israel tentavam alcançar pelo cumprimento integral dos mandamentos – embora nenhum ser humano conseguiu – e, a partir dessa relação, pensa que o assunto que possivelmente lhe angustia, está centrado nas mesmas bases legais que sua própria sociedade culturalmente vivia.

Ao percebermos o início da conversa e como Jesus lhe questiona sobre o seu relacionamento com a Lei, depois de o jovem ter indagado o Senhor sobre como ele poderia “herdar” a vida eterna, logo vemos que sua perspectiva sobre o futuro estava fundada nos mesmos princípios legais que geriam as questões das heranças entre o povo[2]. Ele entendia perfeitamente o princípio de herança que era uma questão legal da sociedade, mas equivocadamente pensava que a vida eterna seria uma coisa de “direito” ou de “legalidade”.

Por isso Jesus passa a descrever em outros termos o que é a vida eterna em sua perfeita ótica, na tentativa de alterar a perspectiva do jovem sobre o assunto. Deste ponto em diante, veremos por outras vias, a verdade ensinada pelo Senhor sobre a vida eterna. Podemos compreendê-la de quatro maneiras:

Primeira – a vida eterna é o reconhecimento de que a pessoa não tem o que realmente necessita para possuí-la (veja v.22,23).

Aquele moço possuía tudo o que qualquer pessoa na face da terra compreende como as coisas mais excelentes que o dinheiro e a posição podem comprar ou ter, porém, mesmo assim, Jesus diz a ele que lhe falta algo. Certamente para o moço a única coisa que lhe faltava era a garantia de viver para sempre, mas o Senhor lhe assevera que ele não tem o que realmente precisa para ganhar a eternidade.

Com estas palavras Jesus lhe diz que a vida eterna só pode ser alcançada por pessoas que sabem que são profundamente necessitadas. Quando o Senhor lhe fala que ele só compreenderá a vida eterna quando se desfizer de tudo o que tem e passar a viver na total dependência dele, o jovem começa a perceber que a vida eterna não é um assunto para gente imatura e sem bom senso, mas para pessoas que estão dispostas a ir muito além do comum.

Segunda – a vida eterna não pode ser conquistada pelos recursos pessoais (veja v.24,25).

Jesus faz uma fortíssima declaração após ver a profunda tristeza de semblante que tomou conta do jovem rico quando percebeu que a vida eterna estava distante dele. Ele disse que um rico não pode entrar no reino dos céus, ou seja, receber a vida eterna, pelo simples fato de que suas riquezas lhe impedirão de alcançar esta vida porque elas se tornarão a única vida com a qual essa pessoa passará a reconhecer e viver e da qual dependerá.

Claro que à luz das Escrituras[3] sabemos que o Senhor não está vaticinando que nenhum rico vai para o céu e só os pobres têm lugar lá, mas que qualquer pessoa que põe sua confiança no dinheiro ou nas riquezas não irá possuir a vida eterna, porque as riquezas serão o próprio “deus” da pessoa e esta irá servi-lo sem perceber que se tornou escravo de um sistema que tem sua própria autonomia e independência de Deus. Mamon[4] é o seu deus e sua vida.

Terceira – a vida eterna é uma impossibilidade humana (veja v. 26,27)

Os discípulos ouvindo as declarações de Jesus logo pasmaram com o grau de seriedade e indagaram que, sendo esses os termos, quem poderia ser salvo? O Senhor responde que a salvação, neste caso, a vida eterna, não é uma coisa que os seres humanos podem alcançar por conta própria, por esforços próprios ou por seus recursos pessoais, mas é algo que apenas Deus pode conceder, ou seja, é um presente, uma dádiva, um dom. a vida eterna é concedida por graça, pela graça, não é uma conquista ou direito humano.

Jesus demonstrou claramente por suas palavras que a vida eterna não é “herança” de direito humana, que ela não pode ser adquirida por nenhuma riqueza material, por nenhum preço que se possa estipular pelos processos de valoração desta existência, mas que a vida que ultrapassa o nosso próprio tempo cronológico e biológico de vida está para além de nossas vontades e desejos, e apenas podendo ser concedida por favor divino em sua soberania.

Quarta – a vida eterna está fundamentada na renúncia (veja v.29,30)

Jesus encerra sua fala respondendo não mais à pergunta do jovem rico – que à essa altura já não participava mis da conversa – mas aos discípulos que também introduziram questionamentos sobre a impossibilidade da salvação, e que pela segunda vez interrogaram Jesus dizendo que se eles mesmos haviam deixado tudo para segui-lo, qual seria a sua recompensa? O Senhor os responde com uma de suas máximas mais contundentes: que a renúncia é o preço para se viver uma vida abençoada aqui e no porvir.

Os discípulos precisavam compreender que a renúncia a tudo o que nos é mais importante, seja família, casa ou bens, é o fator decisivo e definitivo do seguir e do andar com Deus. Seguir a Jesus implicaria em abrir mão de tudo, tudo mesmo para depois receber de volta tudo o que renunciou em medida multiplicada. Esse é o segredo da vida com Jesus: renunciamos a tudo, entregamos tudo a ele, e agora, sendo dono de tudo, ele nos faz mordomos daquilo que é seu. É como se Cristo nos disseste: “Tudo que você tem é meu, agora eu te dou o que é meu para que você cuide para mim por um certo período de tempo!”

Somos apenas mordomos dos bens de Deus. Tudo que temos ou viermos a ter, nossa casa ou casas, nossa família, nosso trabalho, nossos bens e dinheiro, já não são mais nossos, são dele. E ele por infinita misericórdia e graça nos ofereceu a honra de cuidar de todas essas coisas até o dia de sua volta ou de nossa morte. Aos mordomos espera-se que somente sejam fiéis administradores dos bens de seu Amo e Dono, o Senhor.

Queremos ouvir naquele dia: “Muito bem, servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor” (Mateus 25.21). Ansiamos de Deus em Cristo Jesus a vida eterna!

Bp. Carlos Carvalho
Teólogo, Cientista Social, Pr. Sênior da Comunidade Batista Bíblica e fundador da ONG ABAN Brasil.




Notas:

[1] As palavras gregas são: zoen aionon – literalmente vida eterna.

[2] Na Torá as questões sobre a herança tornaram-se parte da cultura do povo de Israel, por exemplo, em Números 27.6-11.

[3] Em Marcos 10.24, Jesus usa a expressão “quão difícil é, para os que confiam nas riquezas, entrar no reino de Deus!”. A expressão “confiam” nos faz entender o ponto que descrevo.

[4] Mateus 6.24.