"A palavra de Deus é viva, e eficaz, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração." Hebreus 4.12
terça-feira, 11 de agosto de 2015
quarta-feira, 29 de julho de 2015
A Verdadeira Apologética
A VERDADEIRA APOLOGÉTICA
A arte da apologética tem como
tarefas principais o defender, enaltecer e traduzir a fé cristã. Vejamos mais
acuradamente os termos.
Defender – o
apologista tenta descobrir o que impede as pessoas de acreditar. Estes
obstáculos teriam surgido de mal-entendidos ou deturpações? Se assim for,
precisam ser corrigidos. Surgiram por causa de uma verdadeira dificuldade em
relação às alegações da verdade cristã? Se assim for, precisam ser abordados.
Enaltecer – o
apologista propõe a permitir que a verdade e a relevância do Evangelho sejam
apreciadas. O Evangelho não precisa ser transformado em relevante para esse
público. A questão é como ajudar o público a entender sua relevância. Pode-se
usar ilustrações úteis, analogias ou histórias para permitir que se conectem ao
Evangelho.
Traduzir – aqui,
o apologista reconhece que muitas das ideias centrais e temas da fé cristã
provavelmente são desconhecidos. Precisam ser explicados usando imagens, termos
familiares ou histórias. Para uma cultura que tem dificuldade de compreender os
termos e ideias cristãs tradicionais, podem-se utilizar as experiências diárias
mais diversas.
Olhando por este prisma, muito do
que vemos, principalmente nas redes sociais, dizendo-se uma “defesa” ou
“apologética” cristã, não parece se fundamentar nos termos do que foi definido
acima. Os ataques, geralmente e especificamente, se detêm aos comportamentos de
cristãos tidos por outros como “heréticos” ou “desviantes”, mas nunca vemos a
apologética voltada para os não cristãos. Quando ameaçam de fazê-lo, somente
descrevem os erros doutrinários ou dos ensinos das seitas e religiões, mas não
falam ao coração dos que estão imersos nestas culturas religiosas ou aos sem
religião.
É uma pena que tão pouco seja
produzido hoje nesta área tão vital para o estabelecimento do reino de Deus nos
corações das pessoas.
Carlos
Carvalho
Teólogo e
Cientista Social
Fonte:
Conversando com C. S. Lewis, Alister McGrath. Editora Planeta,
São Paulo, 2014.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
Os Acontecimentos de Nossos Dias
Tenho dito que vivemos numa
geração pós-moderna, pluralista, relativista e com forte ação para o paganismo
antigo. Isso se dá de diversas formas: pelo desrespeito às instituições, pelo
distanciamento consciente da influência da ética e moral cristã, pela perda
contínua do pátrio poder, pela relativização da verdade, pelo apelo à
libertinagem disfarçada de liberdade, por uma espiritualidade pessoal fraca e
superficial, pelo hedonismo e busca da felicidade sem respeito ao outro, pelas
relações casuais, pela sexolatria maquiada de direitos civis, pelo culto ao
corpo e aos padrões de beleza fora da realidade humana, por uma política de
conchavos, corrupta e corrosiva do erário público que não dá a mínima para o
povo que diz representar, por uma forte impunidade disfarçada de direitos
humanos, por uma Academia mais marcada por teorias e utopias e menos ciência
que melhora o mundo, pela intolerância religiosa e contra a religião e por uma
sociedade que exige diariamente seus “direitos” e não pratica nem conhece seus
deveres.
É óbvio que em um tempo assim,
não devemos subestimar ou nos surpreender com nada que acontece, assim como as
Escrituras já a quase dois mil anos atrás nos advertia que os nossos dias
teriam estas características. Vejamos o que elas nos dizem:
A) Jesus
nos antecipou que haveria de acontecer problemas de todas as ordens,
familiares, relacionais, geopolíticos e na natureza (Mateus 24.4-14)
B) Jesus
nos disse que as pessoas se comportariam nestes tempos como os da época do
dilúvio e de Sodoma e Gomorra (Lucas 17.22-30)
C) Paulo
nos assevera que estes dias que vivemos é marcado pela mudança dos fundamentos
da verdade (2 Tessalonicenses 2.2-12)
D) Ele
nos diz que nossos dias serão marcados pela influência maligna e demoníaca que
se inicia primeiro nos ambientes da fé (1 Timóteo 4.1,2)
E) Paulo
também nos afirma que nossos dias serão invadidos por uma forte mudança no
comportamento das pessoas a partir de sua individualidade (2 Timóteo 3.1-9)
F) Pedro
nos avisa que falsos mestres iniciarão um movimento destrutivo dentro da
própria igreja de Cristo tentando afastar os fiéis de Deus, da verdade e do
evangelho de nosso Senhor (2 Pedro 2)
G) João
nos informa que há uma clara separação entre o cristão genuíno e o espírito do
mundo (1 João 2.1-17)
H) Judas
nos mostra como em nossos dias e sempre existiram pessoas que se disfarçavam de
espirituais, mas verdadeiramente são como enviados do Maligno para corromper os
homens e mulheres de Deus (Judas.4-19)
Basicamente isso. Não é de
admirar que gente com essas características tentem, vez após outra, influenciar
os meios de comunicação e as diversas mídias que existem (e com eficácia) para
seus fins destrutivos da moral e ética cristãs, que tentem, até por meio de
leis, calar a boca dos que eles chama de “intolerantes religiosos” ou
“fundamentalistas cristãos” para que não lancem em suas faces seus pecados e
iniquidade. Não se deve imaginar que essas pessoas não tentariam mudar até a
forma de ensino nas escolas para que as crianças cresçam mais tendentes ao seu
modelo de “família” e “sociedade igual”. Não se deve assustar com suas falas,
suas campanhas, suas manifestações e coisas semelhantes, pois esse é o espírito
que lhes guia. Rejeitam a verdade, odeiam as Escrituras, abominam o Deus
bíblico santo e puro, manipulam a própria imagem de Jesus à sua imagem
pecaminosa e indecente, interpretam os textos à sua maneira e cosmovisão, amam uma
falsa liberdade e se comportam como animais no cio. O que esperar de uma
geração assim?
A nós, cristãos bíblicos só nos
restam algumas poucas coisas a fazer, a saber:
1) Continuar
levando a mensagem da salvação aos perdidos (Marcos 16.15,16). Lembre-se, não
são perdidos porque são pessoas maravilhosas ou boas, mas precisamente por
estarem em rebelião contra Deus e sua Palavra. Devemos pregar o evangelho em
todo o tempo (2 Timóteo 4.2). Não podemos negociar essa ordem bíblica, é
imperativo que não nos calemos. Não somos neutros neste mundo.
2) Devemos
procurar influenciar da maneira que for possível os governantes de nossa nação
para que façam leis e legislem de forma a vivermos em paz e tranquilos (1
Timóteo 2.1-6), mas tudo começa pela oração por eles. Não
somos chamados a ser passivos enquanto o mundo desmorona ao nosso redor, somos
chamados para sermos pacíficos. Ao mesmo tempo, temos uma causa que vale a pena
lutar por ela pelos meios legais disponíveis, por isso não devemos nos
acomodar.
3) Viver
uma vida de santidade diante de Deus e dos homens, sendo sal e luz nesta terra
(Mateus 5.13 e 1 Pedro 2.11-15),
Aos pastores bíblicos ficam duas
grandes tarefas a cumprir neste tempo e diante de todos os acontecimentos:
Primeiro –
devemos proteger e cuidar do rebanho de Deus como o Sumo Pastor nos ensinou e
como os apóstolos nos ensinaram (João 10.11-13 / Atos 20.28-31 / 1 Pedro 5.1-4).
Essa e nossa tarefa principal.
Segundo – devemos
da mesma forma zelar pela sã doutrina e pelo evangelho, com a finalidade de que
o rebanho de Deus não se desvie após hereges e heresias (Romanos 16.17 /
Efésios 4.11-14 / 1 Timóteo 1.3-10 e 4.16 / Tito 1.7-11 / Hebtreus 13.17 / 2
João 1.9,10 / Apocalipse 2.14,15).
Minha esposa me ouviu falando
sobre isso esses dias e me deu uma pérola de sua sabedoria. Ela me disse que os
pastores deveriam se preocupar em proteger o rebanho de Deus das falsas
doutrinas e cuidar para ele seja preservado de todo este mal do mundo. Sei que
isso só é válido para verdadeiras ovelhas, portanto, algo que só será feito em
parte. Mas veio-me a lembrança do que aconteceu quando Deus quis libertar seu
povo do Egito: enquanto ele julgava aquela poderosa nação com suas pragas, \Ele
protegia seu povo na terra de Gósen (Êxodo 8.6; 9.26; 10.21,22). Quem sabe, se
Deus assim quiser, possa fazer com que nosso trabalho pastoral redunde neste
tipo de proteção para Seu rebanho nestes dias difíceis.
A Deus toda a glória!
Bp. Carlos Carvalho
Teólogo e Pr. Sênior da Comunidade Batista Bíblica
Cientista Social e fundador da ONG ABAN Brasil
domingo, 28 de junho de 2015
Artigo junho de 2015
Segundo certos estudiosos vivemos
numa época chamada pós-moderna desde a década de 1960[1], e
uma das características mais marcantes dela é o pluralismo. O pluralismo é uma
visão ou mais precisamente uma cosmovisão que defende a variedade e a
diversidade. É uma perspectiva que exalta a multiplicidade e as diferenças em
vez da homogeneidade, unidade e semelhança[2]. O
pluralismo desemboca no entendimento que relativiza a verdade e a entende não
como algo absoluto, mas como uma coisa múltipla, ou seja, existem diversas
expressões da verdade.
Neste sentido, uma verdade
relativizada leva, fatalmente, as pessoas que assim pensam, a imaginar que os
absolutos não existem no mundo ou que as mais diversas expressões de opiniões
podem tornar-se verdades locais, sem importar com uma verdade mais ampla ou universal.
Portanto, a verdade passa a ser assunto de cultura, de sociedades ou de foros
íntimos, significando que a sua definição depende não mais de princípios
universais absolutos ou divinos, mas sim de como ela é compreendida ou aceita
em cada particularidade.
É claro que esta é a definição que
o espírito pós-moderno impregnado na vida de muitas pessoas de nossos dias dá
para se relacionar com a verdade, porque não está confortável com a ideia de
prestar contas de suas ações no tribunal da verdade absoluta e divina que lhes
condenará por não se ajustarem à verdade. Ainda que não saibam disso, é
precisamente por não desejarem ser confrontados com uma verdade superior que
estas pessoas abraçaram o pluralismo.
Para a Filosofia[3] a
verdade sempre foi e é uma busca. Em termos gerais, a verdade é vista como
aquilo que contrasta com meras aparências. É aquilo que corresponde aos fatos
da questão. É algo que pode ser declarado genuíno ou real. A verdade é firme
diante das aparências e mudanças, portanto, não se altera. Definida assim, a
verdade é um caminho a prosseguir e a perseguir. Para o filósofo, deve-se
trilhar este caminho até que a verdade plena ou absoluta seja encontrada, por
isso, os filósofos pós-modernistas precisaram mudar radicalmente o conceito de
verdade para ajustá-lo ao período atual, pluralista.
Para a Teologia a verdade é algo
absoluto e tem sua fonte em Deus e em sua eterna palavra. Ela é coisa
fundamental e espiritual ao mesmo tempo. A verdade está relacionada
estreitamente com Deus essa verdade espiritual e moral é tão concreta (ou
verdadeira) quando as verdades matemáticas, científicas e histórica[4].
Teologicamente, a verdade é definida nos parâmetros simples do real e concreto
da filosofia, bem como é uma questão divina. Deus é verdadeiro, sua palavra é
verdadeira e, portanto, não há divergência entre a verdade e Deus como fonte
primária de tudo o que é verdadeiro.
Aqui chegamos ao ponto decisivo:
vivemos num mundo cada vez mais pluralista em relação ao conceito da verdade,
mas possuímos o conhecimento do Deus verdadeiro e de sua mensagem verdadeira
aos homens. Essas duas realidades são irreconciliáveis, por isso, temos um
choque de cultura e de conceitos contínuo quando tratamos dos princípios e da
expressão da verdade no dia a dia. Não há como conciliar esses aspectos, ou
aceitamos a verdade plural pós-modernista ou aceitamos a verdade plena e absoluta
de Deus nas Escrituras.
É certo que alguns também tentam
fazer acreditar que este não é o ponto de cisão ou de fragmentação cultural,
filosófica ou espiritual que engloba a vida em nosso mundo, e tentam
desacreditar que não há escolhas a se fazer entre estas duas cosmovisões, mas é
também certo que não pode haver duas verdades antagônicas ou opostamente
iguais, porque elas se anulariam. Ou uma está certa ou a outra está. Vivemos
sim, num mundo onda há uma guerra intelectual e espiritual pela verdade e por
qual verdade se deve viver.
A mensagem de Jesus, o Cristo
(Messias) é única neste cenário: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém
vem ao Pai, senão por mim” (João 14.6). Esta declaração é figurativa acerca da
pessoa do próprio Jesus, mas encarna uma verdade superior representativa. Ele é
a fonte e expressão da verdade absoluta que é atemporal a acultural. Sua
verdade é única, essencial e final, ela é o término da busca filosófica. Se
tudo no universo termina e se decompõe, porque não haveria uma verdade final? E
por que ela não poderia estar nele? Não há nada que impeça isso de ser
verdadeiro!
Este Jesus nos ordenou uma tarefa
global: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos
16.15). Jesus com isso quis nos asseverar que a sua mensagem (o evangelho) é
uma verdade essencial, fundamental e absoluta, e que os homens, independente do
lugar onde vivem, da cultura que tenham aprendido e dos conceitos ou cosmovisão
que advoguem, deveriam viver por esta verdade maior. Sabemos o quanto Jesus era
coerente e o quanto ele era verdadeiro pelo testemunho que seus seguidores
deixaram escrito. Ninguém em sã consciência (em sã consciência!) ousaria dizer
que ele nos ordenaria tal empreendimento se não considerasse que fosse algo
importante.
Assim
como bilhões de pessoas neste mundo compreendem que as palavras de Jesus são
boas e benéficas para trazer a paz aos corações e a mudança da sociedade em um
lugar mais justo, verdadeiro e amável, estas suas últimas palavras ditas antes
de nos deixar são tão verdadeiras quanto as outras. Temos, portanto, uma
mensagem absoluta, um Deus absoluto, um Cristo verdadeiro, vivendo num ambiente
pluralista.
Sem desejar ofender a ninguém nem
ser acusado de causar intolerância ou implantar totalitarismo, Jesus nos
ordenou que mudássemos o mundo pela influência de sua verdade absoluta nos
corações dos seres humanos. Este é o nosso maior desafio de vida.
Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade.
II Coríntios 13.8
Uma vez que conhecemos o temor ao Senhor, procuramos
persuadir os homens.
II Coríntios 5.11 (NVI)
Carlos de Carvalho
Teólogo, Cientista Social, Pr. Sênior
da Comunidade Batista Bíblica, fundador da ONG ABAN Brasil
© Todos os
direitos reservados.
[1]
GRENZ, Stanley J. Pós-modernismo: um
guia para entender a filosofia do nosso tempo / Stanley J. Grenz; [tradução
Antivan Guimarães Mendes]. – São Paulo: Vida Nova, 1997. p. 36.
[2] GRENZ,
Stanley J. Dicionário de ética: mais de
300 termos e ideias definidos de forma clara e concisa / Stanley J. Grenz,
Jay T. Smith; tradução Alipio Correio de Franca Neto, Glasfira Antas, Sandra
Mara Franca. – São Paulo: Editora Vida, 2005. p.133.
[3] Dicionário internacional de teologia do
Novo Testamento / Colin Brown, Lothar Coenen (orgs.); [tradução Gordon
Chown]. – 2.ed. – São Paulo: Vida Nova, 2000. ps.2062-2063.
[4]
Enciclopédia Histórico-Teológica da
Igreja Cristã. Walter A. Elwell (Editor). [tradução Gordon Chown] – vol.III
– N-Z. São Paulo: Vida Nova, 1990. p.614.
terça-feira, 16 de junho de 2015
DOIS ALVOS COM UMA ÚNICA FLECHA
Naquela hora chegaram-se a Jesus os discípulos e perguntaram:
Quem é o maior no reino dos céus?
Jesus, chamando uma criança, colocou-a no meio deles,
e disse: Em verdade vos digo que se não vos converterdes e
não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.
Portanto, quem se tornar humilde como esta criança, esse é o
maior no reino dos céus.
E qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta,
a mim me recebe.
Mateus 18:1-5
Os discípulos de Jesus fizeram uma pergunta e ele deu
uma resposta que abarca dois temas que são necessários ter uma ideia clara
sobre eles. De alguma forma os seus seguidores iniciaram entre si uma questão
sobre quem deles ou quem seria a pessoa de maior importância no reino de Deus.
Esta pergunta não era infantil ou fruto de competições pessoais, mas era uma
dúvida que envolvia toda a cultura na qual aqueles homens estavam inseridos que
compreendiam promessas messiânicas, restauração do reino davídico, libertação
do domínio do império romano e a promessa que o Messias (Jesus) iria reinar em
seu novo reino que estava anunciando.
Portanto, eles queriam saber qual seria a ordem de
importância e de valores neste novo reino que Jesus está anunciando, qual era o
papel deles por causa de sua origem não nobre e como é que os que agora
detinham o governo sobre o povo – escribas, fariseus e Sinédrio – ficariam,
porque estavam acostumados com um modelo de governo no qual nasceram e no qual
vivam normalmente suas vidas. É claro que não entendiam naquele momento que o
reino que Jesus estava anunciando era primeiramente um governo no coração dos
homens para num futuro vir e estabelecer um governo físico sobre o mundo, mas a
pergunta tinha seus motivos e por isso o Senhor não os repreendeu, mas lhes
mostrou algo.
Ele toma uma criança e a coloca o meio deles e lhes
anuncia os dois grandes temas que penso ser o centro de sua fala:
Primeiro, ele diz que todos em seu
novo reino devem se comportar como uma criança, sem maiores aspirações, na
dependência de seus cuidadores (pais ou tutores), neste caso de Deus, humildes
no sentido de que não possuem recursos próprios para governar sobre outros,
impossibilitados de controlar sua própria vida por causa de seu estado infantil
e etc. Mas Jesus também deixa claro que isso só será possível pela conversão da
alma a este estado de “criança”. A palavra que Jesus usou aqui para conceituar
sua ideia é “straphote”, da raiz “strepho”, que por sua vez significa
“voltar-se”, “transformar-se” ou “mudar a si mesmo” literalmente. Portanto, o
maior no novo reino, será aquele ou aquela que assumir esta condição de criança
através da genuína conversão de sua alma a Deus. Esta conversão é uma ação espiritual,
mas é a única base sustentável para que alguém se mantenha ou tenha lugar no
reino de Jesus.
Segundo, ele diz no verso cinco que
quando alguém recebe uma criança também o recebe em seu contexto de vida. Há
duas interpretações que os estudiosos fazem desta afirmação. Uma é que a
criança aqui é uma criança literal e outra é que esta criança representa todos
os crentes na fé. Ainda que possamos aceitar a segunda sem maiores reservas,
prefiro a segunda, pois nos deixa mais dentro da imagem que o texto nos passa.
É sabido que o mundo antigo dava pouca importância às crianças e principalmente
as de sexo feminino. Jesus, como sempre, inverte o quadro de valores de sua
época e põe os de menos valor em posição de igualdade ou superior. É próprio
dele isso.
A resposta dupla do Senhor ensina aos discípulos e a
nós a essência de seu evangelho. É preciso se converter e se tornar como uma
criança para entrar em seu novo reino, no reino de Deus, e de outra forma não
será possível essa entrada. Ser como uma criança, destituída de maiores
pretensões e de busca por posições ou status,
se torna a condição ideal para ser cidadão importante deste reino espiritual. A
importância se dá exatamente por não desejar importância. Um duro golpe nas
mentes de antes e nas de hoje.
Por outro lado, não devemos deixar de pensar e agir
concretamente para beneficiar e abençoar as crianças de nosso entorno de vida.
Elas devem estar em nossas agendas e também nas listas de prioridades de ações
sociais. Elas devem ser protegidas e cuidadas como se cuidássemos do próprio
Jesus. As crianças são alvo do amor e cuidado de Deus, mas Ele não vai descer
de sua morada para vir socorrê-las e protegê-las, Ele deixou isto por nossa
conta. Amar e cuidar de nossas crianças não é uma questão de direito delas –
como no caso do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – mas uma questão de
responsabilidade dos adultos. Não seriam necessário leis de direitos se
olhássemos para elas como Jesus nos ordenou.
Também “crianças” devem ser vistas como todos aqueles
e aquelas que têm profundas necessidades e, sem a ajuda adequada e contundente,
não poderão sair das prisões limitantes impostas pela vida ou por seu estado de
nascimento. São crianças nas impossibilidades de se sobressair das situações
mais humilhantes, aflitivas e desumanas nas quais se encontram. Essas
“crianças” devem ser colocadas em lugar de importância nas nossas atuações
sociais e pessoais. Isso é viver o Evangelho, a mensagem de Jesus e a conversão
que nos faz participar de seu novo reino.
Carlos de
Carvalho
Pastor
Sênior da Comunidade Batista Bíblica
Teólogo,
Cientista Social.
Fundador da
ONG ABAN Brasil
© Todos os Direitos Reservados
quinta-feira, 28 de maio de 2015
FAMÍLIA – A Tentativa da Nova Definição
Carlos de Carvalho[1]
É fato comprovado que conceituar
a família não é fácil, principalmente quando se leva em conta a história
humana. Como não acredito em modelo familiar que não tem registro histórico,
mas apenas especulação paleontológica de possibilidades, atenho-me ao que se
pode encontrar nos concretos registros históricos que dispomos que datam, as mais
distantes, de apenas 13 séculos ante de Cristo[2],
um tempo extremamente pequeno ao considerar as datas aceitas para a vida no
planeta.
A “evolução” histórica do conceito
de família passou por pouca mudança até o presente momento, quando consideramos
adequadamente o que se nos apresenta estes mesmos registros. As famílias eram
constituídas de todos os seus integrantes (consanguíneos ou não) e possuindo ou
não laços afetivos. Era isso que se perpetuou em linhas gerais e as
pouquíssimas variações são de casos extraordinários, como a monoparentalidade em
casos esporádicos.
Por causa da poderosíssima
influência do Cristianismo no mundo, estamos mais acostumados com a definição
tradicional de família introduzido largamente nas leis e constituições dos
países. Como entendimento deste modelo tradicional pode-se inferir que família
é o conjunto de pessoas que possuem grau de parentesco entre si que vivem na
mesma casa e uma família tradicional é normalmente formada pelo pai e mãe,
unidos pelo matrimônio, com um ou mais filhos. Esta é uma unidade familiar
nuclear ou elementar.
Com o advento do fim da modernidade e a entrada no ambiente
da Pós-modernidade, as mais estranhas e diferentes definições surgiram –
obviamente por refletir o próprio espírito pós-moderno de mudanças e rompimento
com o estável e tradicional. Abaixo vemos as definições de família em oferta,
além, é claro, da já conhecida e tradicional:
Família monoparental
Composta por apenas um dos
progenitores: pai ou mãe. Os motivos que possibilitam essa estrutura são
diversos. Englobam causas circunstanciais (morte, abandono ou divórcio) ou
ainda, a decisão (na maior parte dos casos, uma decisão da mulher) de ter um
filho de forma independente.
Família comunitária
Nesta estrutura, todos os membros
adultos que constituem o agregado familiar são responsáveis pela educação da
criança.
Família arco-íris
É constituída por um casal
homossexual (ou pessoa sozinha homossexual) que tenha uma ou mais crianças ao
seu cargo.
Família contemporânea
É caracterizada pela inversão dos
papéis do homem e da mulher na estrutura familiar passando a ser a mulher a
chefe de família. Abrange a família monoparental, constituída por mãe solteira
ou divorciada.
Há claramente uma tentativa,
inclusive de nossos magistrados de alterar o conceito tradicional de família e
estendê-lo tanto quanto possível, com a finalidade de, segundo os que assim compreendem,
englobar de maneira total todos as aspectos da sociedade contemporânea para dar
respostas adequadas às demandas que se apresentarem. Embora o argumento seja
bem sólido e procede de lógica, não significa, todavia, que seja verdadeiro.
Quase todas as mudanças nas bases
das sociedades aceitas até aqui não melhoraram as relações humanas, exceto
aquelas que trataram das liberdades, como por exemplo, o fim da escravidão, os
direitos civis dos negros, a liberdade religiosa e a laicidade dos Estados. As
demais produziram mais conflitos do que paz social. É certo que as lutas por
essas liberdades também criaram graus de violências que insistem em existir até
hoje.
No que diz respeito aos
magistrados de nosso país, alguns pensam nestes termos em definição de família:
“Família é um agrupamento de pessoas caracterizado por afetividade”[3],
declara certa Magistrada brasileira. Já o defensor público Alfredo Homsi, diz
que: “A família contemporânea qualifica-se pela diversidade, decorrente da
busca pelo afeto e pela felicidade, desvinculando-se do conceito
tradicionalista e passando a aceitar sua variedade de constituição, aceitando a
existência de todos os filhos de forma igual, superando o entendimento
conservador acerca da necessidade do laço consanguíneo para a formação de um
núcleo familiar.”[4]
Portanto, está clara a intenção
da imposição das mudanças no conceito de família por parte de alguns de nossos
magistrados e também de políticos. Não sabemos se isto se constituí um eco dos
desejos dos militantes das chamadas “minorias” ou se é verdadeiro anseio por
construir um “país melhor, mais digno, mais igualitário”, como ouvimos constantemente
nos discursos destes “defensores dos direitos de todos” (todos os incluídos em seus conceitos, óbvio!).
Não sabemos aonde tudo isso vai
nos levar, e por dois motivos simples: o primeiro é que a implantação de uma
nova cultura não serve de base sustentatória para descrever os desdobramentos
que virão na vida da sociedade que a receberá. Ou seja, os resultados de
mudanças radicais nas bases de uma sociedade nunca foram benéficos aos seus
habitantes. Lembrem-se apenas da destruição social, cultural e histórica
causadas pelo período das colonizações no mundo.
O segundo é que, mesmo que se dêem
respostas legais e posteriormente transformadas em leis às questões atuais, as
mudanças conceituais de família poderão ter consequências exatamente opostas ao
esperado. Não temos como saber o que virá. Num país como o Brasil, com o
histórico de que “o tiro sai muitas vezes pela culatra”, não temos uma ideia
clara dos quadros que se apresentarão diante de nós no futuro. Como o
cachorrinho que corre atrás do rabo, iremos sempre trabalhar ciclicamente com
nosso histórico “programa de paliativos”, sempre mudando as coisas, mas ficando
no mesmo lugar, porque como diz um provérbio antigo:
Não removas os antigos
limites que teus pais estabeleceram.
Provérbios 22. 28
Referências
Auxiliares
Direito de Família. Disponível em: http://academico.direito-rio.fgv.br/ccmw/images/6/68/DIREITO_DE_FAMILIA_2011-2.pdf.
Evolução Histórica e Legislativa da Família. Disponível em: http://www.emerj.tjrj.jus.br/serieaperfeicoamentodemagistrados/paginas/series/13/volumeI/10anosdocodigocivil_205.pdf
MARIANO, Ana Beatriz Paraná. As mudanças no modelo familiar tradicional
e o afeto como pilar de sustentação destas novas entidades familiares. 2010.
PDF.
NORONHA & PARRON. A Evolução do Conceito de Família.
Maressa Maelly Soares Noronha, Stênio Ferreira Parron. 2012. PDF.
Notas
[1]
Carlos de Carvalho. Teólogo e Cientista Social
pela Universidade Metodista de São Paulo. Fundador da ONG ABAN Brasil
[2]
A História dos Registros do Conhecimento. Disponível em: http://dci.ccsa.ufpb.br/enebd/index.php/enebd/article/viewFile/104/111
[3]
Juíza manda registrar criança com nomes da mãe e dos pais adotivo e biológico.
Disponível em: http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/juiza-manda-registrar-crianca-com-nomes-da-mae-e-dos-pais-adotivo-e-biologico/
[4]
As Novas Famílias Brasileiras. Disponível em: http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/as-novas-familias-brasileiras-que-a-lei-precisa-enxergar/
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